Poeminha de Primavera

Um hálito primaveril

entre descobertas e emoção,

foste teu sorriso anil

que conquistaste meu coração.

Teu perfume é um jardim

conquistando paixões.

Passos teus a mim

alimentam minhas ilusões.

Ei de querer te descobrir!

Tepidez beijo do destino:

no retrato a moça a sorrir.

Vestido ao vento a dançar

o olhar em desatino

outro moço a procurar.

Poeta do entardecer

Não

não chores

não choro sem lágrimas

aborto de sentimentos.

Se ainda

teimas em sonhar

com o olhar d’alguma menina

de longos cabelos negros

ao vento

que sejas

mansamente

beijo de passarinho.

E se ainda

o vazio do caminho

vier a te entristecer

teças simples poesias

sejas

poeta do entardecer.

Flores e espinhos

O jardim estava ali. Bromélias, Crisântemos, Jasmins.Ele o sentiu como nunca. Cada minúscula partícula do seu cosmo. Palavra estranha esta, que ouvira certa vez em algum lugar de sua infância. Sabia o nome de todas as flores, aprendera ainda criança com mestre Deolindo. Era Abril, as cores em seus matizes o encantavam. O frio havia chego. As cigarras não mais cantavam e as borboletas estavam cada vez mais escassas. Apenas um suave silêncio quebrado suavemente pelo gotejar de uma delicada chuva e o bater de asas de um teimoso beija-flor enamorado por uma Tulipa.
No repente um gélido vento acariciou sua face. E no compasso deste momento seu coração batia acelerado; o que acontecera nos últimos instantes iria para sempre repercutir em sua vida. Ele sabia disso e agora lhe restava apenas incontáveis e borbulhantes pensamentos. Sentimentos a navegar vestidos de medo e indecisão por sua mente.
Antes que novos detalhes pousassem em seu caminho de detalhar o momento ouviu um seco som de passos se aproximando; gritos de comando, o engatilhar de armas e percebeu o cinza das fardas dos policiais a quebrar a harmonia do lugar. Compreendeu o fim de tudo, mas não ia reagir. Dava assim um fim aos seus sonhos de garoto e como nunca desejou um ultimo abraço de seu pai, a torta de morango de sua mãe, um beijo de namorada e o som de sua banda preferida no seu mp3; mas órfão aprendera a não navegar por mares tão distantes e percebia assim ao cruzar o abismo da fronteira do crime que até mesmo o conforto dos jornais nas calçadas seria um sonho distante.

Camaquã: Terra de Poesia

O homem que cavalga longamente por terrenos selvagens sente o desejo de uma cidade. E uma cidade não é apenas construída por seus prédios, suas ruas, seus muros e seu povo; mas também por sua poesia.
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A Camaquã poética começa com uma mulher de grande valor, que transcendeu os portões da cidade. Seu nome era Anna Patrícia Vieira Rodrigues César. Nascida no ano de 1864, na Fazenda Santa Rita, em suas andanças pelo Brasil foi a fundadora de várias academias feministas. Como em Manaus e Recife. Pode ser considerada uma das primeiras feministas do país. O jornal A Pátria, onde ela escrevia, fez um plebiscito perguntando qual a mulher que deveria ingressar na Constituinte e ela venceu. Sendo também a Patronesse da cadeira 31 da Academia Feminina do Rio Grande do Sul. Morreu no Rio de janeiro, em 1942. Ana César colaborou para diversos jornais, entre eles: O Globo, A Noite, O Rei da Manhã e Camaquam. E dirigiu as revistas Tribuna Feminina, Vida Social e Democracia. Entre sua obra encontramos os livros em prosa, Fragmentos (1931) e Farroupilhas (1935). Sua obra poética está em Folhas Soltas, Rosas Desfolhadas e Cromos:
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A mulher e a imprensa conduziram a humanidade, ampliando, iluminando os seus destinos. Em países onde a missão desses dois poderosos fatores é fielmente cumprida e exercida, a nacionalidade cresce e se avigora no caráter, na justiça e no dever. A Vida é um grande livro com páginas caprichosas, nas quais o destino traça os seus desígnios em várias tintas.
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A saga poética de Camaquã segue nos anos 70 com a presença de Laury Farias dos Santos, poeta e declamador tradicionalista. Nascido em 08 de março de 1930 foi um dos fundadores da Estância da Poesia Crioula. Representou a cidade durante muitos anos em Congressos Tradicionalistas por todo o estado. Seus poemas eram publicados em jornais como o Correio do Povo e nas antologias da entidade da qual fazia parte. Faleceu em 22 de maio de 1974. No ano de 2001 sua obra foi resgatada no livro póstumo, Versos Crioulos.
O precursor da poesia modernista camaqüense é Evandro Gomes, nascido em 11 de agosto de 1958, filho de Ederaldo de Souza Gomes, fundador da farmácia mais antiga da cidade. Evandro, em 1979, publica o livro poético Cacos & Insetos.
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. Reticenciamento
Quanto mais eu me concluo
Muito mais eu me improviso.
Resgato-me do dia de ontem E adio-me para outro século
E por lá invento meu próprio tempo
Num eterno reticenciamento de vida e solidão.”
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Atravessando os já idos anos 80, a poesia nativista teve seu destaque com dois grandes nomes da sociedade camaqüense: Bernardo Linck, com Eu sou o Rio Grande do Sul e Adroaldo Fernandes Claro, com Três Chamas e Transformações da Querência . Adroaldo é o atual Patrono de gestão da Capocam.
Em 1987, Álvaro Santestevan pública O Poder do Sótão & Cinco Poemas Amarelos. O idealizador da Casa do Poeta Camaqüense é natural de Encruzilhada do Sul onde nasceu no dia 05 de novembro de 1960, mas radicado em Camaquã desde 1968, o poeta é licenciado em Letras pela Fundasul e tem se dedicado a serviço da educação e da cultura durante vários anos. Em suas obras ainda consta o livro Poema é uma Criança Desobediente lançado no ano de 2006.
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Só o poema
O que somos sem o outro
o que pensar sem o pensamento alheio
não posso ser nada sem ser tudo
ninguém é inteiramente só
a solidão é uma falácia
somente o poema é que fabrica isolamento.
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No ano de 1989, ano em que completaria seus 125 anos, a cidade de Camaquã, pelas mãos de alguns, visionários recebe no dia 31 de março a sua Casa do Poeta Camaqüense, a Capocam. E em julho do mesmo ano já tem na obra de Catulo Fernandes, Viagem ao Fundo do Verso, a primeira publicação em suas saias poéticas. Catulo Fernandes nasceu em 08 de março de 1964 na Vila São Carlos. De suas palavras: “Minha única faculdade na vida foi a dificuldade vívida.” Podemos orgulhar-nos de encontrar aí um grande combatente das letras e da poesia, que em seu currículo cultural já ostenta ter sido Patrono da Feira do Livro de Camaquã em 2004, Patrono da Feira do Livro de Cristal em 2007, ser atual colunista do jornal Gazeta Regional, entre outras atividades no meio cultural. Ainda de sua autoria encontramos as obras: Escorado no Bar Cão (1991) A Bruxa Gorducha e a Vassoura Magricela (2005, literatura infantil) e em parceria com João Maximo Lopes: Camaquã, Terra Farroupilha. (2007)
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Verso subversivo
Nasci em março de 64
Família pobre e de respeito
Ai, ai…5 anos de idade
Em 1969 perdi meu olho direito
Ali naquele instante
Menino inocente
De visão esquerdista
Descobri que os comunistas
Não comiam criancinhas.
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Na saga poética camaqüense há muitos nomes ainda a contar, mas seria injusto a todos aqui aportar, pois entre muitos nomes conhecidos há por certo alguns de não se encontrar. Mas de dois nomes ainda quero lembrar. No ano de 1991 com a obra Título: Mulher, surge a poeta Inês Ramos Crespo que também muito se destaca em suas atividades, pela educação e cultural de nossa cidade. Atualmente exerce, entre tantas atividades, a presidência da Fundação Barbosa Lessa. Autora também de Rosa de Sal, em 2006.
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Gosto do querer tão manso
Com ânsia de terra quente
Do aconchego de menino
No teu corpo de descanso
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Encontramos entre nossos poetas o amigo, que muito orgulho e estima dá em nosso meio, ‘o vovô dos poetas’ Onélio Lopes Chagas que artesanalmente publicou a obra Terapias da Vida, e em 2005 o Terapias da Vida II. Exemplo de que a poética em Camaquã não tem fronteiras, pois anda de mãos dadas poetas com todas as idades. Como último feito desta tão onírica cidade poética, encontramos o Eclipses & Elipses, com o versejar dos jovens poetas Anderson Borba, Alceu Amaral, Leandro Martins e do amigo Carlos Eduardo, paulista, mas que deixou sua marca na poética desta terra de ruas, muros, prédios, gentes, mas também de sonhos e poesias.

O Grito e a musa

—  Caralhooo…

Sempre achei que uma boa história deveria começar a partir de lindas palavras e alguns pensamentos filosóficos, os quais levassem o leitor a um mundo particular e onírico. Mas talvez esta não seja uma boa história e nem se revele particular ou onírica.

A palavra gritada ao vento vinha carregada de dor e frustração. Já eram 3 da manhã e ao descer a lomba da Matriz, o homem solitário amargava a decepção de um encontro não acontecido. Suas calças pretas surradas e uma camiseta do Matanza o tornavam parte da noite. O silêncio da madrugada era apenas quebrado pelo som de seu celular que teimava em tocar Green is the Colour, do Pink Floyd.

Tudo começara dois meses antes ao encontrar no Point X, uma lancheria da cidade uma garota que lhe chamou atenção. Desde o início teimou-lhe chamar de Maria, talvez por cotejar a pele alva da garota a imagem que tinha da mãe de Jesus, ou outro devaneio qualquer. No entanto o nome era algo que não lhe entretia a razão. Joice, o nome era esse, era uma das garçonetes da lancheria e carregava junto a si uma beleza de fato estonteante.

Desde então Leonardo começou a frequentar o local assiduamente nas tarde quentes do verão. Saía do trabalho e partia para o encontro de sua musa alva de seios fartos e bumbum arrebitado que vinha lhe atender entre meios sorrisos e uma seriedade distinta que a tornava mais atraente ao seu admirador.

No entanto a timidez o impedia de proferir outras palavras além das tradicionais Boehmia ou Brahma. A degustação da bebida vinha sempre acompanhada de uma fatia de torta salgada ou uma porção de fritas o que o induzia a adquirir calorias extras levando o a uma incomoda obesidade que o tornava menos atraente ao olhar feminino mais apurado as tendências tanquinho do verão.

As semanas passaram e o acaso levou-lhe a descobrir o número do celular da garota. Um amigo em comum em troca de um favor fornecera-lhe o número com a objeção de não ter o nome revelado em caso de uma investida fracassada  de Leonardo. Em uma súbita coragem juvenil  e alguns goles de cerveja o arrebatado rapaz enviou-lhe uma mensagem  convidando-a para um encontro  na Praça da Matriz após o expediente. Mensagem enviada do Point X mesmo. A resposta veio a noite com um misto de curiosidade e apreensão. Dizia que Joice não costumava sair com desconhecidos e que este devia se revelar antes ou nada feito.

Leonardo viu-se em um dilema: revelar-se e confrontar-se com a resposta da garota ou permanecer escondido e nunca desvendar o que poderia ter sido. O fato é que naquele 03 de março ele enviou-lhe uma mensagem dizendo ser o assíduo frequentador  da lancheria e que a esperaria na Praça da Matriz aquela noite.

Se a garota percebeu a falta do cliente aquela tarde na lancheria deu-se discretamente, pois de nada comentou com suas colegas. No entanto Leonardo correu para casa aquela tarde para esperar o tão aguardado encontro, mesmo sem ter recebido resposta a sua mensagem. As horas se arrastaram como nunca dantes aquele dia. Por volta de 10 da noite estava ele na praça, mesmo sabendo que a garota poderia sair do trabalho só depois da meia-noite.

Seus pensamentos percorreram naquelas horas outras histórias ali acontecidas, matizes de encontros e desencontros. Desde os beijos trocados no banco o qual novamente sentava até a frustração da garota que o dispensara sem nem ao menos olhar para traz certa vez. Ainda teve tempo de ensaiar palavras a serem ditas para Maria e perceber que o melhor ensaio é a imprevisibilidade do momento, o arrebatamento das emoções pulsantes do instante vivido.

Ao descer a lomba carregando o fado da derrota  perdeu-se na obscuridade de seus pensamentos. O grito silencioso acima descrito veio no mesmo instante que seus olhos perceberam o casal que vinha ao seu encontro. Sua Maria abraçada a um jovem moreno sorria distraída e ao passar por ele nem ao menos o notou naquela monótona noite de verão.

 

 

Segredos

Eu tenho um amor
pequeno devaneio
entre a rotina do dia a dia
e o frenese instante.
Um amanhecido suspirar
de meus olhos
a guardar
segredo desejo
de tocar a suavidade de teu rosto
desvendar os mistérios
entre teus lábios
e testemunhar
o caláfrio
desta noite moribunda
onde
tão nefasto assalto
dormido em meu coração
faz teu olhar
terno de abundânte vida minha
que se
desfaz em ti.

Busca

 

 

Que chegues ao fim às madrugadas

Que chegues ao fim à espera

Que o beijo que vai

Seja o mesmo beijo que vem

E que haja diferenças entre os beijares

E que no êxtase dos amanheceres

A saudade que desperta

Transforme-se no reencontro

E que no tornar-se parte da noite

O sussurro faça-se silêncio

E o silêncio contemple

O gritar de teu corpo

A pertencer-se..